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A mulher que fotografa a esperança

Angelita Santini Niedziejko escreve histórias de beleza e esperança com a linguagem da luz

“Deus disse: ‘Faça-se a luz!’ E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.”
(Gênesis 1,3-4)

Por Paulo Briguet

O verbo fotografar significa literalmente “escrever com a luz” — e a luz é o ofício de Angelita Santini Niedziejko. Depois de trabalhar muitos anos como projetista em um escritório de arquitetura, Angelita tomou uma câmera nas mãos e saiu a procurar a beleza na realidade criada por Deus. Achou-a primeiramente em casa: incentivada pelo marido, fotografava cenas dos filhos Mateus e Danilo, pequenas luminosidades domésticas, instantâneos da vida familiar. “A fotografia é até recente em minha vida. Comecei nesse caminho mais ou menos em 2009, com a câmera analógica do meu marido. Pela experiência com arquitetura, desenvolvi noções de luz, equilíbrio, textura, composição”, diz a nossa fotógrafa (ela integra a equipe da pastoral da comunicação).

Angelita é intensa no que faz. Aposentou o AutoCad da arquitetura e mergulhou de cabeça no universo da fotografia. Fez diversos cursos com profissionais conhecidos da cidade — entre eles Flávio Menolli e Ber Sardi —, participou da oficina “Brincando com a Luz” na UEL e, no curso de pós-graduação da Unopar, encantou-se com as ricas possibilidades da fotografia autoral.

O tema de seu trabalho de conclusão de curso ocorreu-lhe depois de uma missa celebrada pelo Padre Rafael Solano na Paróquia São Vicente de Paulo. Ao sair da igreja, Angelita viu a singela casinha onde morou Madre Leônia Milito — transformada em espaço de memória da futura santa de Londrina. Foi uma revelação para a fotógrafa: “Aquela casa, aquela varanda, aquelas janelas, aquele jardim, aquele silêncio… Tudo tão simples, tão limpo, tão bem cuidado… Ali estava o meu tema!”

Finalizado em 2013, o TCC de Angelita Niedziejko faz uma leitura poética da casa em que viveu Madre Leônia. “Meu objetivo era mostrar o modo simples de morar”, diz a fotógrafa. Nas paredes e nos objetos daquela casa, a ausência física de Madre Leônia de algum modo fortalece a sua presença na memória e no coração dos fiéis. A casa é um retrato da moradora que escreveu em seu Diário Espiritual, em 7 de abril de 1975: “A minha vida é toda do Senhor. Uma vida intensa feita de pequenas e grandes coisas. Uma vida oculta por amor consumida. É por livre escolha que aceitei viver, até à morte, esta vida de doação a Deus”. É como se as paredes falassem!

Com as fotografias da casa de Madre Leônia, Angelita já participou de três exposições na cidade, uma na Casa de Cultura da UEL e duas outras no estúdio Maquinótipo. Até por sua experiência e proximidade com arquitetura, a fotógrafa continuou realizando trabalhos sobre as formas simples de moradia. A busca de Angelita inclina-se em direção a dois valores fundamentais da cosmovisão cristã: a beleza e a esperança.

Mas será possível fotografar a esperança? Sim, se o caminho escolhido passar pela beleza. Há dois anos, Angelita voltou o seu olhar de fotógrafa para o Jardim Nova Esperança, comunidade pobre da zona sul de Londrina atendida pela Paróquia São Vicente de Paulo. Com uma notável sensibilidade para captar a beleza no rosto humano, ela passou a acompanhar as visitas dos grupos de escuta católica às famílias que passam por dificuldades no bairro.

Nessas visitas, nem sempre Angelita faz fotos. “Muitas vezes eu apenas escuto o que as pessoas estão dizendo”, confessa. “Diante de algumas situações, simplesmente não consigo tirar a câmera da bolsa e dizer: ‘Posso fazer uma foto?’ Seria uma invasão, um desrespeito.” Denunciar a pobreza e o desamparo das pessoas é um trabalho importante, mas não é a missão de Angelita. Seu foco é procurar a beleza e a esperança.

Angelita encontra o que procura na Casa de Apoio das Irmãs Salesianas, comandada pela sempre sorridente e dinâmica Irmã Pushpa. Ao fotografar as oficinas, cursos e atividades solidárias realizadas no local, a fotógrafa reuniu uma coleção de imagens em que a beleza das pessoas refulge com as cores da esperança. “Vejo o quanto a fotografia ajuda na autoestima das pessoas. Fotografei mulheres lindas, que jamais tinham visto a beleza do próprio rosto. A fotografia faz tanto bem para as pessoas!”

Em 1907, o poeta francês Charles Péguy escreveu um poema em que a Esperança é apresentada em letra maiúscula, como se fosse uma pessoa:

A Esperança é uma meninazinha de nada
Que veio ao mundo no dia de Natal do ano passado.
(…)
No entanto, é esta meninazinha que atravessa os mundos.
Esta meninazinha de nada.
É ela sozinha, carregando os outros, que atravessará os mundos passados.
(…)
É ela, essa miúda, que tudo arrasta.
Porque a Fé só vê o que é.
E ela, ela vê o que será.
A Caridade só ama o que é.
E ela, ela ama o que será.

Cento e dez anos depois, a fotógrafa Angelita Santini Niedziejko chegou a uma conclusão muito semelhante à do poeta francês. Ela também vê nas crianças a personificação da virtude teologal da esperança. Seu próximo passo é fazer uma oficina de fotografia com as crianças. Assim, os meninos e meninas do Jardim Nova Esperança, acostumados a sorrir mesmo na adversidade, poderão se tornar escritores da luz. Antes mesmo do início das aulas, já há quem demonstre talento para o ofício. O retrato de Angelita que ilustra essa matéria foi feita por uma das crianças do bairro.

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