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Dom Albano, o Cidadão do Céu

Ao viver plenamente a cidadania do mundo, o arcebispo emérito de Londrina buscou a cidadania da eternidade.

Uma antiga lenda judaica diz que existem 36 santos ocultos no mundo, os Tzadikim Nistarim. Graças à existência desses homens justos, Deus adia a destruição do mundo. Conforme algumas versões da lenda, os santos ocultos não se conhecem uns aos outros e até mesmo ignoram a própria importância perante os olhos do Criador. Quando Dom Albano Cavallin nos deixou, em 1º de fevereiro de 2017, eu lembrei me dessa antiga tradição. Acredito que a lenda dos Tzadikim Nistarim tenha algo da mais profunda verdade. E digo mais: levo comigo a forte impressão de que o arcebispo emérito de Londrina era um desses homens justos que fazem Deus adiar o fim do mundo.

Uma das características das pessoas agraciadas com a santidade é a capacidade de estar presentes em mais de um lugar ao mesmo tempo, como que através de uma participação na onipresença divina. D. Albano não chegava a possuir o dom da bilocação — como Santo Antônio de Pádua ou Padre Pio de Pietrelcina —, mas dominava a arte mágica se fazer presente nos momentos mais importantes e decisivos.

Presenciei algumas dessas “aparições” do amado arcebispo. Uma delas foi em 1999, no auge do movimento cívico Pé Vermelho Mãos Limpas, que combatia a corrupção na Prefeitura de Londrina. Lembro-me claramente da cena, como se ela estivesse ocorrendo agora: D. Albano chega silenciosamente à sala do Tribunal do Júri, onde estão reunidos os líderes e os apoiadores do movimento. Quando o arcebispo entra na sala, sentimos que a vitória da moralidade estava assegurada, porque as lutas mais decisivas de uma sociedade sempre acontecem no campo espiritual, e lá está um homem que possui os mais fortes vínculos com a transcendência. Acrescento a informação, talvez irrelevante, de que eu era ateu na época. D. Albano foi uma das figuras centrais da minha volta para a Igreja Católica.

FORÇA ESPIRITUAL

Poderíamos citar aqui diversos outros episódios em que D. Albano chegou na hora certa e necessária, seja para defender alguma causa essencial da fé (ele era um incansável inimigo do aborto e da ideologia de gênero), seja para reparar alguma injustiça, seja para consolar uma pessoa perseguida. Definitivamente ele não tinha medo de cara feia. Era bom muito ter D. Albano como aliado, e dificílimo enfrentá-lo como adversário. Tolos eram os que se enganavam com a modesta compleição física do arcebispo; quando lutava pelas boas causas, o sorridente filho da Lapa podia se tornar um leão, contrariando a falsa noção de que os santos são frágeis e bonzinhos. Estive presente numa missa em que uma conhecida liderança política saiu indignada após uma homilia contundente. O santo é o oposto do fraco.

Falar em D. Albano me faz recordar a famosa “Epístola a Diogneto”, um dos tesouros do cristianismo primitivo, em que um anônimo tenta explicar a um nobre pagão quem são aqueles estranhos fiéis: “Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no Céu”.

Eis que finalmente, nas palavras escritas há quase dois milênios, achamos a definição de D. Albano: mais do que um cidadão de Londrina, ele era um cidadão de Céu. Na cidade dos homens, ele semeava misericórdia e justiça com igual intensidade. Lá da Cidade dos Céus, ele continuará nos orientando para novas colheitas e semeaduras, como os movimentos celestes orientavam os antigos lavradores e navegadores, na terra ou no mar. Nos seus muitos papéis da cidadania terrena, D. Albano mapeou-nos o caminho para a eternidade. Nesta peregrinação que todos realizamos, e que ele fez questão de acompanhar até as últimas forças, quando o ar já lhe faltava e o coração batia com dificuldade, a bússola sempre foi e sempre será a Cruz.

SER PARA O OUTRO

  1. Albano era um cidadão do Céu porque era um cidadão da Terra, um ser-para-o-outro. Tinha o dom de se colocar no lugar do próximo, em um constante exercício de compaixão cristã e compreensão humana. Prova disso está no seu livro “Bispo, Ensina-me a Rezar”, publicado em 1999, com o qual ele me presenteou quando deu à nossa família a honra de sua visita, na companhia de seu grande amigo, o nosso pároco, Padre José Rafael Solano Durán.

Em pouco menos de 100 páginas, o livro reúne orações que D. Albano fez em diversas circunstâncias de sua trajetória eclesiástica. Ele encarna os diversos personagens e cenários da vida cotidiana e faz assim a Oração do Espelho, a Oração do Jornal, a Oração da Agenda, a Oração do Telefone, a Oração do Hoje, o Novo Cântico das Criaturas, a Oração dos Olhos, a Oração dos Pioneiros, a Oração das Catedrais do Ar, a Oração das Cozinheiras, a Oração dos Operários e Patrões, a Oração do Comerciante, a Oração do Bancário e, digo com muita emoção, a Oração do Jornalista: “Cristo, dá-me a graça de imitar a Tua coragem, para que, através do jornal, eu possa, como tu, ser um pouco advogado dos pobres, médico dos necessitados, defensor da ordem e protetor dos órfãos e das famílias. Peço-te uma entrevista contigo, Jesus, o meu grande líder e modelo de comunicador. Peço-te também fotografar o Céu, que imagino ser o reino onde se vivem, em plenitude, a verdade, a justiça, o amor, o perdão e a felicidade”.

Conforme a lenda dos 36 santos ocultos, sempre que um dos homens justos termina a sua missão na Terra, é substituído por outro. Há muitas cidades no mundo; não creio que Londrina será novamente agraciada com um dos Tzadikim Nistarim. Enquanto o fim do mundo continua sendo adiado, o que temos de fazer é seguir o exemplo de homens como D. Albano e caminhar segundo os passos do Santo acima de todos os santos, Jesus Cristo. Assim um dia, alguém poderá falar dos londrinenses: “Moram na terra, mas têm sua cidadania no Céu”.

Por Paulo Briguet

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