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Dom Geremias: “É preciso acolhimento para a conversão”

Em entrevista especial ao site da São Vicente de Paulo, o novo arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz, fala sobre Eucaristia, Estado laico, corrupção e defesa da vida

Bem-humorado e paciente, Dom Geremias Steinmetz recebeu jornalistas de Londrina para uma entrevista coletiva, antes de celebrar a missa em homenagem ao padroeiro da cidade, o Sagrado Coração de Jesus. O arcebispo foi nomeado no dia 14 de junho, mas só tomará posse oficialmente no dia 12 de agosto. Ele fez questão de responder todas as perguntas e ressaltou o papel da comunicação no processo evangelizador.

Em Paranavaí, onde foi bispo durante 6 anos, Dom Geremias mantinha um programa de rádio. Mas destacou-se pelo empreendimento catequético. Ele investiu na formação de ministros, instalou a escola de diáconos, deu impulso à construção do seminário e criou o Tribunal Eclesiástico.

Vir para uma cidade oito vezes maior será um desafio, a ser compartilhado com os 150 padres, 290 religiosos e 75 diáconos da arquidiocese, além dos leigos. “A mentalidade urbana, hoje, está em todos os lugares. A cidade cresce… o poder público pode não estar presente, mas a igreja deve estar! É preciso atender as pessoas que estão doentes, deprimidas ou excluídas. Há periferias geográficas e também existenciais”, ponderou.

Vindo de uma família de onze filhos, Geremias Steinmetz é natural de Sulina, região oeste, e estudou em Palmas. Em 1986 começou a cursar teologia em Florianópolis. Foi ordenado padre em 1991, e em 1998 concluiu o mestrado em Liturgia, em Roma.  Foi professor de filosofia da linguagem e da religião. Aos 45 anos foi chamado para o Episcopado e tornou-se presidente da Associação Cultural e Educacional Paulo VI.

Agora, aos 52 anos, inicia mais uma etapa na vida sacerdotal. Ele será o quinto arcebispo de Londrina, depois de Dom Geraldo Fernandes (o empreendedor), Dom Geraldo Majella Aguinelo (o liturgo), Dom Albano Cavallin, (o santo) e Dom Orlando Brandes (o missionário). Qual será o perfil adotado por Dom Geremias em Londrina? Ele ousou responder essas e outras perguntas à comunidade da Paróquia São Vicente de Paulo.

Por Lívia Oliveira

 


Dom Geremias, diante da herança histórica deixada por seus antecessores, qual é a marca que o senhor pretende dar ao seu trabalho na cidade?

Eu diria o seguinte, nesta questão de marca, eu gostaria que o início não fosse o mais considerado. Um casamento é sempre mais admirável no fim do que no começo. No começo tudo é paixão, beleza e desconhecimento. Depois é que vem a dificuldade da vida, onde tem que aparecer verdadeiramente o caráter de cada pessoa. Eu tenho lido sobre Dom Geraldo Fernandes e Dom Geraldo Majella. Com Dom Albano eu conversava bastante e mandava para ele coisas que eu escrevia, ele sempre respondia, muito gentil. Dom Orlando Brandes eu conheço de mais longa data, ele foi meu professor e diretor espiritual. No meio disso tudo, eu estou aqui com alguns planos. Não tenho coragem de dizer se sou missionário, se sou liturgo…. Santo, não sou (risos), esse é Dom Albano. Eu tenho formação litúrgica, mas quero ver como está isso aqui em Londrina. Tenho também notícias de alguns problemas que aparecem, sobre um certo neoconservadorismo na liturgia… Vamos ver como a gente vai conseguir lidar com tudo isso. Eu não me defino, por enquanto.

Nos anos 1990 e 2000, a cidade de Londrina padeceu com algumas administrações maculadas pela corrupção, o desleixo e a incompetência. Hoje, até como forma de autodefesa, nossa população tem um perfil notadamente conservador, embora seja profundamente aberta a mudanças restauradoras da moralidade da união cívica. De que maneira o sr. Pretende dialogar com as forças políticas locais e regionais?

A corrupção tem que ser abominada. E políticos corruptos também tem que ser deixados de lado. Eu espero que nas próximas oportunidades de urna que Londrina tiver, deixe de lado os políticos corruptos. Isso a gente não pode mais compactuar. O nosso povo sofre, às vezes na saúde, às vezes na educação, no transporte… as periferias não são atendidas e a gente vê como a corrupção campeia. Como diz o Papa, “a corrupção cheira mal”, temos que abominá-la de todas as formas. Aliás, a CNBB tem se pronunciado fortemente nessas questões da corrupção, até mesmo sobre CPI´s que não vão para frente, ou que nasceram corruptas, e até mesmo algumas decisões do governo, o medo das investigações… isso é conscientização política. A igreja é formadora de opinião e deve ter atuação política, porém, apartidária. Eu não preciso ser nem PT, nem PSDB, para perceber a questão da corrupção ou para lutar contra ela. Hoje cresce no Brasil uma posição apartidária que quer mais qualidade de vida, que quer o dinheiro público respeitado. Isso tem que ser no nível federal, estadual e, principalmente, municipal, porque é aqui que vivemos nossas necessidades. Inclusive, vou transferir meu título eleitoral para cá, porque quero participar da vida da cidade. Nas questões mais amplas, eu tenho apoiado as posições da CNBB e faço parte do conselho permanente. Inclusive assino embaixo desta última nota em defesa do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

 Londrina foi abençoada com um forte e ativo movimento pró-vida; recentemente, a Câmara Municipal aprovou a criação do Dia do Nascituro. Como o sr. Poderá apoiar e dinamizar a causa em defesa da vida na Arquidiocese?

O pensamento cristão é que nós temos que defender a vida desde o seu surgimento no útero materno até o seu fim natural. Será muito interessante trabalhar este tema nas paróquias, inclusive para discutir o aborto, que tem por trás questões que não compactuam com os direitos do nascituro. Ainda não sabemos, por exemplo, como lidar com os problemas que as mulheres que abortam vivem depois. Crescem as depressões de mulheres que abortaram e depois se sentem mães, se sentem em luto, sem ter os filhos nos braços. Como é que isso vai ser trabalhado na consciência das pessoas? É a mulher que sofre, e sofre mais, porque é ela quem carrega isso nas costas. O homem, muitas vezes, se safa mais fácil até na própria consciência. Mas a mulher sofre terrivelmente. Onde começa a vida humana senão no feto, no momento da concepção? Onde?

 

A Eucaristia é um dos fundamentos da nossa civilização, embora muitas vezes permaneça oculta aos olhos do mundo. Como o sr. Pretende levar o Corpo de Cristo, a presença viva do Verbo, à comunidade londrinense?

A Eucaristia é que nos faz igreja, é a maior manifestação da igreja. São as igrejas repletas, são as liturgias preparadas… cabe a nós fazer com que a Eucaristia, enquanto sacramento, seja realmente reflexo de uma catequese mais profunda. Quanto mais profunda a catequese das pessoas, mais profundo vai ser o sentimento das pessoas em relação à Eucaristia. Então, vamos ver como isso tudo se desenvolve. Eu quero viver um Corpus Christi aqui com vocês, quero começar a participar, para ver como as pessoas vivem a Eucaristia aqui, como é a participação nas igrejas de Londrina. Isso tudo eu não sei ainda. Está tudo muito recente, eu terei que passar por mais experiências.

 

Há um pequeno, porém ruidoso, movimento laicista em Londrina, sobretudo no meio universitário. Militantes persistem em confundir Estado laico com Estado ateu. É possível definir uma estratégia para levar o Nome e a Palavra de Deus a ambientes paganizados?

O Kerigma, ele tem realmente que ser levado. Toda fé brota do Kerigma, do anúncio fundamental da nossa fé. Jesus Cristo é a palavra encarnada do Pai, Ele anunciou o Evangelho, e Ele sofreu, foi crucificado e ressuscitou, e está ao lado do Pai. Essa é a verdade fundamental. A pessoa só consegue fazer uma opção de fé quando ela ouve falar, ouve o testemunho… então a fé vai crescer. A fé nasce do ouvir. As pessoas não vivem mais só por preceitos. Elas querem viver uma experiência de fé. É preciso acolhimento para a conversão. Pessoas devem se sentir elas mesmas seguidoras de Jesus. O que me preocupa é que existe uma concepção de estado laico que não quer defender a dignidade humana. O estado laico não pode ser confundido com o desrespeito ao ser humano.

 

Qual será o envolvimento da Arquidiocese de Londrina com a questão educacional, tento em vista que a Igreja é a grande educadora da nossa civilização?

Nós temos que nos envolver firmemente na formação do povo de Deus. E eu sou o primeiro a estar à disposição para ensinar, para interpretar, para chamar a atenção, se for o caso, para falar sobre Jesus Cristo, sobre Nossa Senhora.

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