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EM BUSCA DA PESSOA PERDIDA

Padre José Rafael Solano faz uma profunda reflexão sobre a ideologia de gênero e a identidade humana

SE SÓCRATES ESTIVESSE AQUI…
Se eu tivesse Sócrates aqui comigo esta noite, eu utilizaria uma frase dele: — O lado mais cruel da morte é que a gente faz perguntas às pessoas que amamos e elas não têm como responder. O meu debate nesta noite nasce de uma pergunta: — O que se entende na sociedade ocidental pelo termo gênero? É impressionante perceber como, ao longo desses quase 20 anos de pesquisa, sempre me deparo com uma séria preocupação e uma forte realidade: se fala em masculino, se fala em feminino, se fala em transumano, mas não se fala mais em pessoa. Esta é uma ocasião para se resgatar uma das belas expressões da antropologia cristã, que estabelece dois pólos de compreensão, um que não é determinista. Quando se fala no processo civilizatório encontramos que o indivíduo foi exaltado de tal forma que a pessoa foi completamente anulada. Eu diria ainda mais: houve uma problemática centralizada no indivíduo a ponto de exaltar a existência desse indivíduo, tornando impiedosa essa existência. Em poucas palavras, a pessoa hoje, no século 21, está virtualmente morta. O problema da pessoa na sociedade é que o ser pessoa virtualmente morreu. E já ninguém quer responder por essa pessoa. Independentemente da sua condição, independentemente da sua participação e aquilo que é pior — independentemente da sua relação consigo mesma e com os outros. É bem provável que no final deste século alguém diga ao nosso respeito: eles viveram, mas não eram.

O RESGATE DA PESSOA HUMANA
E este é um problema antropológico real e concreto, que desde os pré-socráticos até os nossos dias verdadeiramente traz consigo um diálogo que está se tornando cada vez mais impossível. A pessoa deve ser resgatada. Três elementos eu encontro muito delicados no debate do gênero. O primeiro é a incidência do comunismo do século 19.  Para mim, o século 19 não deveria nunca ter existido. Não vou dizer que odeio o século 19, mas ele aplacou a grandeza do século 17. E o que nós estamos vivendo no século 21 é a materialização de um século que colocou o indivíduo no centro, aniquilando tudo aquilo que era periférico para ele, como, por exemplo, os seus sentimentos. No século 19 se negou toda a possibilidade humana a reconhecer no homem, na mulher, na criança, na pessoa humana, o valor dos seus sentimentos. Hannah Arendt retoma Platão e, com todo respeito, Platão não tem absolutamente nada a ver com o conceito de pessoa. Porque Platão aniquila a sensibilidade humana. E quando se aniquila o sensível, imediatamente a pessoa perde a capacidade de espantar-se, de assustar-se, de admirar-se. Hoje, nesta plena sociedade na qual vivemos, fazemos grandes campanhas, mas campanhas que não trazem consigo nem espanto, nem admiração, nem susto. E isto é gravíssimo. Muitas pessoas que governam não sabem governar a si mesmos. Muitas pessoas que tentam agir são incapazes de fazer uma ação concreta, e o que é pior, muitos não têm a capacidade de prosseguir, de ir até o fim, e então criam grandes movimentos. Os latinos utilizavam a expressão gerere, que significa continuar a partir da história. O comunismo aniquilou a história e ainda pior: na América Latina o comunismo veio trazido nos braços de uma pessoa com uma forte mania de aniquilar essa capacidade de assombro: Gramsci.

Gramsci destruiu, antropologicamente, a capacidade que o homem e a mulher têm de admirar-se pelas coisas humanamente divinas. Então, por exemplo, hoje, ninguém se admira, familiarmente, com a natividade de uma criança. Em muitas sociedades, como a finlandesa, a súplica do governo é para voltar a ter novamente o rosto de uma criança. Com isto não quero dizer que o termo gênero seja única e exclusivamente ligado ao elemento cultural. Quando ouvimos falar pela primeira vez em gênero, muitos de nós pensamos que estávamos diante de uma situação definitiva, e não é. Tenho nos meus estudos, em meus diálogos, percebido que muitos se manifestam contra o gênero ou a favor do gênero, sem saber se verdadeiramente esse conceito polifacético tem sentido ou não.

O SACRIFÍCIO DE CHARLIE GARD
Segundo elemento destruidor: um homem chamado Lewis Henry Morgan. Sem dúvida nenhuma, em muitas faculdades e em muitos ambientes brasileiros, Morgan entrou pela porta grande. E aqui eu divido as duas conceituações frente ao gênero e ao ser persona. Persona, pessoa em português, para Morgan, era algo completamente inexistente. Porque o ser pessoal tinha que ser eliminado da estrutura privada. Vou colocar um exemplo muito recente – Charlie Gard. Um menino de onze meses, cujo Estado original, Inglaterra, que é um Estado soberano, se tornou um Estado soberbo. Pela primeira vez, um Estado cometeu soberbamente uma decisão – acabar com a vida de um indefeso, amparando-se nas leis. Em alguns ambientes sociais, o Estado entra e decide qual deve ser, por exemplo, o destino da pessoa. Foi criado com Morgan um modelo que eliminou as relações familiares, destruindo e minando o conceito de pessoa. Isto acontece no século 19, 1885. Em 1968, uma pessoa chamada Rober Stoler define a específica necessidade de fortalecer e definir. Porém Stoler não tem a força suficiente para angariar o detrimento da conjugação gênero e sexo. Para Stoler, utilizar o termo sexo masculino ou sexo feminino constituía uma série problemática diante da identidade sexual. Aqui me faço a primeira pergunta da noite: – O que entende a sociedade do século 21 por identidade sexual é um apêndice do comportamento humano, como alguns desejam afirmar? Houve duas mulheres, as duas as estou estudando para um trabalho que pretendo realizar sobre o conceito do feminino. Em 1975, Elizabeth Clark e Simone de Beauvoir são as duas maiores promotoras do feminismo ocidental. E é aqui onde o gênero e o aparecimento do novo sexo atraem a atenção sobre toda a situação daquilo que foi citado aqui como os valores científicos do século 20.

Na cidade de Nova York, um grupo de mulheres decidiu sair às ruas exigindo pela primeira vez o direito ao sufrágio. E a este movimento lhe deram o nome de feminismo ideológico. Praticamente, exigir o sufrágio era um conceito, era uma definição ou era uma necessidade? Estamos em 1975, quando surgem os grandes movimentos hippie na
América do Norte e começam a movimentar-se por toda a Europa e chegar a América Latina.

NO SEX, ALL SEX, MEGA SEX
Em 1999, iniciou-se aquilo que eu chamo de o quarto capítulo do termo gênero. Surgiram três movimentos muito fortes. Todos americanos: No Sex, All Sex e Mega Sex. Não ao sexo — Na Califórnia um homem chamado (Joan Abel) abre espaço para dizer não temos sexo, não é que não praticamos sexo, é que nós nos negamos a nos definirmos sexualmente.

All Sex  — Dentro da sexualidade, dentro desse sexismo, é necessário estabelecer um critério de que tipo de sexo eu quero praticar. Sempre e quando a corrente do sexo que eu pratique respeite a corrente daqueles que querem praticar esse sexo comigo. Acabei de chegar dos Estados Unidos e para minha surpresa hoje se institucionaliza em muitos estados o assim chamado poliamor, que nasce do All Sex. Eu tenho uma relação contigo, chamamos essa relação de casamento entre aspas, mas eu quero que saibas que eu tenho três tipos de relacionamento diferentes, porque entre nós dois não existe nenhum tipo de compromisso. É interessante perceber isso — para muitos, o conceito gênero não envolve a dimensão do compromisso, e o comprometer-se, dentro da antropologia, é fundamental porque aquilo que comunica o que sou verdadeiramente é o meu compromisso. Neste quarto ponto foi onde entrou a famosa proposta dentro do sistema educativo e pedagógico. Não é um problema do Brasil, não é um problema da América Latina. É um problema de Ocidente.

O Ocidente está perdido. O Ocidente perdeu a capacidade de reconhecer o drama do ser humano que passa pelo tempo, mas que ao mesmo tempo faz parte de um ambiente natural que lhe está sendo cada vez mais negado. E aqui chego à minha tese. Se esta suposta decisão de ser pessoa vem acompanhada de um aniquilamento total do conceito da pessoa em si mesma, a pessoa então poderá ser substituída por qualquer tipo de identidade. E então o gênero vai ocupar o primeiro lugar dentro desta cultura.

HOMEM É HOMEM, MULHER É MULHER
Quando você estabelece elementos culturais, você tem que aprender dessa cultura. Pode parecer piada o que sempre digo, mas não é piada, vivo na pele. Ninguém me aceita como brasileiro. Ninguém está interessado em aceitar-me como brasileiro. Para 99% desta platéia, excluindo-me a mim mesmo que sou o 1%, eu sou colombiano. Não me aceitam como brasileiro não porque não tenho passaporte brasileiro, porque o tenho, não porque não tenha CPF, o tenho; tenho RG, tenho domicílio, mas não tenho o sotaque brasileiro. O essencial não pode ser jamais tirado da pessoa.  O homem será sempre homem e a mulher será sempre mulher. E esta constituição própria não permite a ninguém que tire a sua genuinidade. O genuíno do ser não é aleatório, não é ocasional. O genuíno do ser, antropologicamente, é aquilo que lhe dá lugar dentro da sua existência. Eu nunca poderei viver neste mundo como mulher, eu nunca poderei identificar-me neste mundo como mulher. A minha realidade, de homem, traz em si mesma uma decisão própria que não me elimina a mim e que me impede, pela sua origem, eliminar as mulheres. A comunhão do gênero nos torna cada vez mais próximos. E não teríamos necessidade de falar em gênero se verdadeiramente compreendêssemos a belíssima proposta de uma antropologia milenar, que é a antropologia cristã – a pessoa pode gozar plenamente de estabilidade e unicidade. O gênero, não. Porque o gênero se deixa conduzir pelo caráter metafísico de uma história que cada vez mais é subjetiva. Há quem diga “não gosto”, há quem diga “por esse determinado tempo eu gosto” e há quem diga “pouco ou nada me interessa”. Qualquer tipo de relação com a metafísica atual está levando o homem e a mulher do século 21 a sentir-se dono e senhor de sua própria identidade, porém, com um grande vazio. Não sabe, verdadeiramente quem ele ou ela é.

GÊNERO E DESCONSTRUÇÃO DA PESSOA
Quarto elemento — parece a mim que estamos diante muito mais do que um gênero proposto pela cultura, estamos diante de uma cultura de gênero. E isto é perigosíssimo. Estamos atravessando um limiar muito frágil. Se as coisas mudaram, mudaram em quê? Se as coisas têm agora um novo teor, qual é esse novo teor? Diante dessa realidade parece a mim que se torna necessário resgatar um elemento que nos anos 50 foi básico para desenvolver o conceito de pessoa: a liberdade. Mas não a liberdade por si mesma. E sim a liberdade que me torna pessoa.  Me torno cada vez mais livre quando encontro uma pessoa como eu. No Brasil e no mundo temos uma agenda de gênero concreta, que não é uma mera ideologia. A ideologia de gênero corresponde a uma mentalidade. E eu digo para os meus amigos e para os meus inimigos — é uma mentalidade transitória. Vai destruir, vai passar talvez como um tsunami, mas é transitória. O que vai ficar da ideologia de gênero no sistema de ensino latino americano é a desconstrução da pessoa, e não a valorização da pessoa. Em que sentido e em que direção estou apontando – o verdadeiramente preocupante para mim como teólogo hoje é aquilo que durante um bom tempo se vem advertindo sobre este tema da ideologia e do gênero. Aliás, aquilo que vem se tornando um tanto insustentável, mesmo do ponto de vista científico – se perdeu o veículo ético e a direção moral. E então muitos dizem que é um problema religioso. Não há condições de negar a experiência da comunicabilidade entre a ciência e a cultura. Não há como fazer isso. Se está tornando insustentável uma cultura antiética. Hoje muitas pessoas se sentem segregadas quando você faz determinadas perguntas. Mas são perguntas justas e necessárias que a sociedade não pode perder. Existem perguntas que são muito mais do que urgentes. É impressionante quando você denuncia o fato da corrupção, todos ficamos um pouco avermelhados, mas quando você denuncia, por exemplo, uma educação que erotiza as crianças, ninguém fica vermelho. Ninguém se escandaliza quando uma criança é iniciada sexualmente na escola pública ou muitas vezes na escola privada. Ou até em escolas de denominação religiosa que se dizem católicas. Isto deveria causar-nos um estupor ético. Porque dentro do caminho que a pessoa vive, cada identidade, seja masculina ou feminina, tem direito a um princípio ético que é inegável e irrenunciável — o pudor.

O pudor não é um princípio religioso. O pudor é um princípio de comunhão, que me permite estabelecer com o outro relações profundamente claras. Algumas pessoas pretendem agredir o conceito do masculino e do feminino dizendo que é uma questão da Igreja Católica. Não é. É uma realidade ontológica. Com todo respeito, eu não posso escolher ser homem ou ser mulher construindo a minha própria identidade sexual. Esta é uma ambição sem fundamento, sem base. O termo gender é apresentado em uma única realidade aqui no Brasil. E quando tentamos fazer um debate como este, claro e aberto, em muitos ambientes acadêmicos nos é proibido. Parece que é como se a antropologia cristã não tivesse absolutamente nada a afirmar de originário dentro da sua natureza. E muitos simplesmente vivem naquela expressão catastrófica: tive que aceitar ser homem, tive que aceitar ser mulher. Não é uma aceitação carente de significado, o ser homem e o ser mulher não cumpre uma única função social. O ser homem e ser mulher significa ser autonomamente gerado por um Deus criador que nos fez à sua imagem e semelhança. E que colocando em nós essa semelhança fez com que cada um de nós tivesse a sua particularidade subjacente. Esta subjacência não é cultural, não é educativa. Não posso exigir de uma sociedade que eduque os seus cidadãos dentro de uma cultura geral, genérica, na qual eles possam fazer opções que não são opções, sem liberdade.

E DEUS VIU QUE ERA BOM
Se nós tomássemos a narração bíblica da Criação, o que pertence ao texto é o essencial. Uma vez concluídos os sete dias, Deus viu que tudo estava feito muito bem. Mas dentro dessa bondade da Criação, Deus percebeu que um único ser não só se parecia com ele, tinha saído dele. Não é o mesmo criar que ‘sair de’. A expressão profunda desta antropologia é dita qualquer tipo de manipulação com a natureza.

Quinto ponto — deploravelmente, hoje, o nosso ambiente natural é muito mais do que manipulado. Hoje, as nossas escolhas básicas em relação ao que é natural são completamente dominadas pelos esquemas de poder e especialmente pelos esquemas prioritários das nossas sociedades — ocupar o primeiro lugar, não dar lugar para o outro, passar por cima do outro, ou aquilo que está acontecendo, construir o futuro de uma sociedade em cima e a custo das cinzas dos outros. A meu ver nós estamos caindo mais uma vez no dualismo platônico. Dentro do conhecimento filosófico e antropológico as pessoas estão perdendo a sua integridade. E por isso neste quinto ponto se faz necessário falar abertamente do conceito família. A família não é uma instituição social, a família é uma instituição divina. Ela possui entranhas, membranas e cromossomos divinos. Não se é família pelo fato ou pelo Estado de fato. Não se é família pela decisão de criar ambiente social propício, não se é família pela escolha de necessidades e interesses próprios, a família de todos que estamos aqui em nenhum momento foi preestabelecida. E querem que eu lhes diga uma coisa que cada vez está me causando mais medo — a família no Brasil está sendo pré-determinada.  Se está chamando de família aquilo que não é e nunca será família. Jamais. Nós nesta noite, neste auditório, não somos família. Nós não podemos afirmar que a família pode ser preestabelecida pelas leis, não podemos  afirmar que a liberdade de amar alguém e estabelecer com este alguém o dom familiar possa ser determinado por um Estado que é capaz de dizer ou não dizer que tipo de família é esta. Marx e Engels vêm até hoje carregando este drama da família e do Estado. Não tenho nada conta Marx e Engels, mas simplesmente nos colocaram no pior dos momentos. Marx e Engels estabeleceram, de forma verdadeiramente degradante, aquilo que é necessário para o ser humano — eliminar todo tipo de relação afetiva em nível familiar. O sonho de Marx e Engels não se viu concluído porque eles esqueceram de uma coisa que é básica — todos os seres humanos são livres, por mais que alguém queira nos dominar ou oprimir. E aqui esta liberdade antropológica é aquela que traz a maior de todas as conseqüências. O essencial à família não é a tolerância da sociedade. Hoje se fala de configurações familiares. Segunda pergunta desta noite — o que estão entendendo por configurações familiares? A quem estão dando o nome de família? A um relacionamento, a uma forma de vida ou a um estilo próprio de viver?  Em poucas palavras, na proposta da família quando se propõe ela na sua integridade, no seu valor, está em jogo o destino da própria humanidade. E é aqui onde eu passo do medo a uma grande esperança – tornou-se evidente que onde Deus é negado, também se dissolve a dignidade do ser humano. Impressionante. Quem fala de Deus fala do ser humano. É inseparável. Os dois mistérios se juntam. É na sociedade atual, quer de um lado, quer de outro, muito mais do que uma negação de Deus o que está havendo é uma grande negação do ser humano.

SER HOMEM, SER MULHER, SER PESSOA
Então, a ideologia de gênero, ao meu ver, está pleiteando um ser humano que pode transitoriamente trazer consigo um estilo de vida, porém não um estilo de vida próprio que ele deveria levar. Assisto com um pouco de preocupação programas que em alguns ambientes sociais estão sendo promovidos. Percebo, por exemplo, no meio dos adolescentes, a grande confusão. Será que sou homem? Será que sou mulher? Uma sociedade na qual não se encontra o peso da afirmação. E nisto temos sempre que olhar para a realidade, que não é só a realidade atual, é a dupla problemática que se apresenta diante de nós. A primeira, uma sociedade que está completamente desnorteada. E a segunda, uma sociedade que está vivendo dentro dessa situação, uma realidade caótica. Alguns de nossos adolescentes têm a sua iniciação sexual com pessoas do mesmo sexo. Não houve violação, não houve estupro, não houve pedofilia, não houve depravação. Houve um incentivo educativo — “experimente tudo, você tem direito a experimentar”. A sociedade pragmática se afogou faz muito tempo. Em alguns ambientes querem resgatar um pragmatismo que é inexistente. É bem particular que todo mundo pense que eu sei de drogas. Eu nasci no país das drogas, mas isto não me fez consumidor de maconha ou cocaína. Não posso continuar fazendo uma proposta pragmática a um ser humano que não é pragmático.  O menos pragmático de todos os seres é o humano. Porque a ele você lhe deve algo que não terá nenhum outro ser — a criatividade. Poder dizer para um adolescente que o amor é responsável traz consigo uma exigência de uma sociedade que não quer viver essa responsabilidade. No carnaval a única proposta é o uso do contraceptivo ou da pílula do dia seguinte ou da camisinha. Mas ninguém fala que amar-se com responsabilidade é esperar a vida adulta. Responsável, digna e sacralizada pelo dom do amor. Por que não falamos para os nossos adolescentes que ser homem e ser mulher ou na plenitude da palavra significa ser pessoa? Porque temos medo que essas pessoas, um dia, tenham a coragem de ir contra aquela sociedade dominadora. Até hoje nunca vi uma mulher no mundo ocidental levantar uma bandeira para dizer — por que não fazem contraceptivos masculinos que desestabilizem o afetivo do homem, a tireóide do homem, a incapacidade que o homem tem de olhar-se para o espelho e sentir-se manipulado? E se fala de liberdade do ser feminino quando essa sociedade com os seus contraceptivos só mostra um domínio maior sobre a mulher. Que tipo de gênero está em jogo, se fosse o gênero, aquele que deveria ser a expressão máxima de tudo o que significa e envolve a pessoa. Estamos diante, muito mais do que um problema, de uma realidade que exige de nós uma mudança de linguagem.

Continuar insistindo no termo gênero, continuar insistindo no termo cultura genérica ou cultura dos gêneros ou ideologia de gênero só vai nos trazer o maior de todos os problemas da humana oriental e ocidental — a desconstrução do termo pessoa. Quer dizer, a aniquilação do ser humano em sua plenitude. Se nós continuamos insistindo na ideologia de gênero ou no termo gênero cairemos sem dúvida nenhuma na incapacidade de um diálogo com um ambiente cultural. O respeito pelo outro exige a grandeza da plurifacética forma de ser pessoa. Mas de ser pessoa criada, amada e destinada à salvação. Se alguém se sente rejeitado é talvez porque não tem sido reconhecido como pessoa. E esta grande carência é aquela que está levando inúmeros seres humanos a perder a sua consistência dentro da história.

NINGUÉM QUER OUVIR O GALILEU
Se continuarmos insistindo em ideologia de gênero e cultura, a nossa cultura perderá as suas estações. E então hoje se fala na mesma tonalidade, na mesma linguagem e na mesma forma de ser porque todos perdemos o objetivo de sermos pessoas únicas e irrepetíveis.  Nesta sociedade, o problema da linguagem não é um problema filosófico. É um problema existencial. Muitas pessoas até hoje não tiveram a oportunidade de expressar publicamente o que elas são. Não porque não tenham o dom da palavra ou a capacidade do raciocínio, senão porque a sua linguagem é completamente desconhecida. A antropologia cristã está sendo aniquilada pelos poderes subjetivos de muitas sociedades. Ninguém quer falar mais na bela expressão proposta pelo homem da Galiléia — Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém quer ouvir mais a voz do túmulo vazio. Ele está vivo. Ninguém quer mais entender a linguagem clara e objetiva de alguém que dá a vida por você até o extremo, que não considera inimigo, inimiga e sim irmão. Que não considera a prostituta, prostituta e sim irmã, que não considera o negro, negro, e sim irmão. Aquele que ensinou a humanidade que não existem barreiras para acreditar que o outro é uma pessoa. Ou mudamos a linguagem de gênero e decidimos, como cultura, suprimir essa expressão, ou teremos uma grande responsabilidade, que não será mais metafísica e sim histórica —  uma sociedade impessoal, cheia de anônimos subjetivos.

Fala do padre Rafael Solano no debate “Gênero: cultura, preconceito ou ideologia”.

 

Por Rosângela Vale e Paulo Briguet

 

 

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