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A costureira de Deus

Madre Leônia viu Dedé chorando perto do santuário. A moça estava inconsolável. Havia ido passar o Natal com os familiares na pequena e distante Tangará da Serra, Mato Grosso. Na época, a cidadezinha não tinha asfalto nem telefone. Quando Dedé chegou à casa da família, recebeu uma notícia devastadora: a mãe havia morrido dois dias antes, vítima de tétano, com apenas 45 anos, e já estava enterrada. De volta a Londrina, Dedé não conseguia parar de chorar.

Foi nesse momento que Madre Leônia se aproximou. A serva de Deus pôs-se a dizer palavras doces como Dedé jamais ouvira. “Ela me falou coisas tão lindas. Parecia conhecer minha mãe. As palavras dela foram tão profundas que curaram a dor do meu coração. Era o próprio Deus, falando através da madre”, dizia Dedé.

Madre Leônia partiria alguns anos depois, em 1980. Neste final de semana foi a vez de Dedé. Maria José Sonego Faquete morreu aos 69 anos, depois de uma longa e corajosa guerra contra o câncer. Era uma personagem muito estimada na região do Santuário Eucarístico Mariano, onde descansa o corpo da serva de Deus Madre Leônia Milito, a futura santa de Londrina.

Dedé era costureira de grande talento; entre seus “fregueses” amigos, estava o saudoso Dom Albano Cavallin, ex-arcebispo de Londrina, de quem ela fazia as vestes eclesiais. Com sua habilidade no corte e costura, participou de momentos inesquecíveis de inúmeras pessoas, criando vestidos de noivas e roupas de batismo. Era mais que um ofício, era uma arte.

A jovem que Madre Leônia consolou naquele dia também se tornaria uma figura de presença marcante na comunidade católica, especialmente na Paróquia São Vicente de Paulo, da qual era pioneira. Ali atuou como catequista e ministra da Eucaristia por muitos anos, além de fundar o grupo de jovens hoje conhecido pelo nome de Sedecias.

Segundo uma antiga lenda, havia em Alexandria um sapateiro que costumava dizer, a cada ponto que dava nos calçados: “Salvai uma alma, Senhor!” Algo muito semelhante faziam as irmãs pioneiras do Colégio Mãe de Deus, quando costuravam os uniformes das alunas. Tenho certeza de que a Dedé também ocorriam pensamentos dessa natureza quando exercia seu ofício. Ela era, portanto, uma costureira de Deus.

“Só Deus é quem sabe todo o risco do bordado”, diz uma personagem do escritor mineiro Autran Dourado, em um livro inesquecível. Não estamos capacitados a conhecer agora todos os planos de Deus para nossa eternidade. Por isso, precisamos lembrar que a cada ponto de nossa vida, de nosso cotidiano, de nosso trabalho, de nossa luta — podemos estar dizendo um adeus.

Agora é a hora, Dedé. Você, que ajudou a tecer o manto sobre tantas pessoas, vai dar um abraço em sua mãe e na Madre Leônia, que lhe esperam na Casa eterna.

Por Paulo Briguet
Crônica publicada dia 22/01/2017 na coluna Avenida Paraná, da Folha de Londrina.

 

 

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