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Quando a fé na missão venceu todas as barreiras

Irmãs Claretianas celebram 60 anos de fundação carregando legado missionário e pastoral de Madre Leônia Milito

Irmã Tarcisia Gravina, uma das pioneiras da congregação

No dia 19 de março de 2018, a Congregação das Missionárias de Santo Antonio Claret comemora 60 anos de fundação, em uma história que mistura a fé na missão, a perseverança, a coragem, o reconhecimento e um cartão postal que mudaria vidas.

Para entender melhor a congregação criada por Madre Leonia Milito e Dom Geraldo Fernandes, devemos voltar anos antes da fundação, ainda na década de 1950, quando a então Maria Milito, com um grupo de outras 17 missionárias italianas, desembarcaram no Brasil em 1952 para realizar trabalhos de evangelização e assistência social. Madre Leonia era a líder das missionárias franciscanas no país. Elas se instalaram no estado de São Paulo, na diocese de São Carlos. Por lá, foram desenvolvendo os trabalhos em orfanatos, asilos e creches. As franciscanas tinham toda a documentação, autorização e bênção para trabalhar no Brasil. O padre Geraldo Fernandes Bijos era um dos que acompanhavam as ações às crianças e aos mais necessitados.

Durante o período em que as franciscanas estavam em missão pelo Brasil, ocorreu a troca no comando do Governo Geral, sendo que os novos responsáveis, além da coordenação geral da congregação, não viam com bons olhos a missão no país, por considerá-lo violento. “O Governo Geral mudou na época e queria que todas as italianas retornassem. Madre Leônia disse que não tinha como voltar, porque tinha as vocações e os serviços assistenciais sendo feitos aqui. Ela não poderia abandonar a missão pela metade. Como ela era a responsável pelo grupo, foi a que mais sofreu com isso”, disse a Irmã Mariza Rosseto, secretária geral das Claretianas. “Não era uma desobediência, e sim uma resposta à necessidade da comunidade”, completou a vigária geral da congregação, Irmã Aparecida de Lourdes Arado.

Irmã Aparecida comentou que na época houve muita pressão pelo retorno das missionárias, que decidiram por pedir apoio aos bispos brasileiros. “Todos eles (bispos) deram apoio às irmãs, assim como o Dom Geraldo Fernandes, que na época ainda era padre”. Conversando com o grupo, Madre Leônia declarou que só havia uma opção: ou voltariam para a Itália, ou assumiriam uma nova congregação, pois estavam sem autorização dos franciscanos para seguir no Brasil. E elas decidiram ficar. Com o sinal de ‘fico’, a Madre foi dispensada pela congregação. Mas as atividades pastorais estariam por continuar.

“(Elas) tiveram muita força em Deus e muita segurança na Madre Leônia (para ficar). A gente não toma uma decisão assim de maneira repentina, em deixar a família toda para trás. Em nome da missão elas ficaram”, destacaram as Claretianas.

Nomeado como o primeiro Bispo da diocese de Londrina em fevereiro de 1957, Dom Geraldo Fernandes acompanhava a situação problemática em que passavam Madre Leonia e as demais missionárias italianas, convidando-as para morar em Londrina, para onde vieram no dia 30 de junho daquele ano. “Dom Geraldo pegou a dor e a causa delas e trouxe Madre Leonia para cá com o objetivo de dar continuidade no trabalho pastoral”, explicou Irmã Mariza.

O local onde as Irmãs ficavam foi cedido por Dom Geraldo e era conhecido por Vila Vicentina, já que moravam por lá pessoas que haviam sido abandonadas e/ou que não tinham lugar para morar. A missão de ajudar os mais necessitados continuava viva. “O povo de Londrina sempre foi muito solidário e simpático. Um povo realmente maravilhoso”, declara a Irmã Tarcísia Gravina, uma das pioneiras da Congregação e que foi uma espécie de braço direito de Madre Leonia durante a sua vida pastoral.

Já em 1958, em viagem à Roma para tratar de diversos assuntos, Dom Geraldo Fernandes comentou com o papa na época, Pio XII, sobre a situação das missionárias, que já se arrastava por meses. Questionado sobre a criação de uma nova comunhão entre as Irmãs, o pontífice deu a autorização e Dom Geraldo enviou um cartão postal até Londrina com a autorização. Coube à Irmã Eucarística Lo Conte, também uma das co-fundadoras, a notícia de que poderiam então fundar uma nova congregação, que fora denominada Missionárias de Santo Antonio Claret. O cartão postal chegou às 15h15 do dia 19 de março de 1958.

Pouco a pouco, o complexo que conhecemos hoje começava a ser construído, graças ao esforço das próprias Claretianas. Em São Paulo, por exemplo, elas recebiam do governo para cuidar de crianças da antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM) – atual Fundação CASA. Todo o dinheiro recebido era mandado para Londrina para construção dos prédios. Além disso, rifas também eram vendidas para a arrecadação de mais recursos. O prédio que hoje abriga a sede-geral da congregação foi finalizado em 1964.

Hoje todo o complexo conta com o Santuário Eucarístico Mariano (capela), o Instituto Coração de Maria (sede-geral) e a Casa da Memória, que foi decretado pela Prefeitura de Londrina como um polo de interesse turístico, religioso, histórico e social, além de um museu pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), por abrigar objetos que eram da própria Madre e também de Dom Geraldo. Devido a isso, segundo as Irmãs, o lugar também pode ser considerado um centro de espiritualidade, por guardar a memória da fundação e do carisma da congregação.
As Irmãs Claretianas também atuam, de forma direta ou indireta, em outros dez locais, divididos em centros de educação infantil, casas de apoio, asilos, casas de acolhida (para formação) e abrigos.

“Igreja em saída”

Quando o Papa Francisco assumiu o seu pontificado, em 2013, tornou-se popular a expressão “Igreja em saída”, de onde Francisco fala que é preciso “ir além dos muros”, dirigindo-se às “periferias existenciais e geográficas”. Para as Irmãs, a congregação claretiana sempre seguiu este modelo. “Somos uma igreja em saída desde o começo, seja no Brasil ou no mundo. A missão é muito enriquecedora e tem muitos desafios. Vale muito a pena seguir Jesus Cristo, porque você aprende, conhece e vê outros tipos de cultura. Por mais que o Brasil seja uma mistura de culturas, a África possui uma realidade completamente diferente. As atividades não são iguais, a Igreja é viva, de celebrações, cantos, danças e ritmos. É fantástico participar daquilo. Te abre a mente para ver com os olhos do outro”, disse Irmã Mariza, que ficou em missão na África por 13 anos, entre a Costa do Marfim e o Gabão.

25 anos dos ramos carismáticos

As atividades pastorais realizadas pelas Claretianas acabaram inspirando dois ramos carismáticos: o Instituto Claretiano de Leigos Missionários (ICLEM) e a Fraternidade Eclesial Claretiana (FEC). O ICLEM, fundado em 11 de fevereiro de 1993, é formado por casais e famílias que são discípulos missionários dentro da sociedade em que vivem. Já a FEC, fundada em 08 de dezembro do mesmo ano, é composta apenas por mulheres que se consagram pelos três votos (pobreza, castidade e obediência), assim como as demais vocacionadas. As integrantes da FEC possuem o seu trabalho e se mantém de forma independente. Ambos os movimentos completam 25 anos de existência em 2018.

Processo de beatificação

Foto: Arquivo

Desde 2003, quando foi finalizada a fase diocesana, o processo de beatificação de Madre Leônia está em sua fase romana, na Santa Sé, e na chamada fase de “estudo do presumível milagre”, na qual uma equipe, formada por médicos e teólogos, analisam se o milagre realizado apresentou intervenção divina. A Irmã Terezinha de Almeida é a responsável por acompanhar o processo e atua como uma porta-voz de Roma para Londrina.
Madre Leônia morreu aos 67 anos em um acidente de carro na BR-369, em Cambé, no dia 22 de julho de 1980. Com isso, ela foi designada como a padroeira da vida no trânsito e todos os anos a congregação realiza ações de conscientização, como a bênção de carros, a pedalada solidária e a caminhada missionária, além de missas todo dia 22 na capela Nossa Senhora do Caminho, construída próxima ao local de morte da madre.

De Londrina para o mundo

Além da sede-geral em Londrina, a congregação claretiana está localizada em outros nove estados além do Paraná: São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Alagoas, Pernambuco, Amazonas e Espírito Santo. Pelo mundo, estão nos cinco continentes: Argentina, Chile e Paraguai (América); Costa do Marfim, Togo, Gabão e Moçambique (África), Portugal, Itália, Alemanha, França e Polônia (Europa), Sri Lanka, Filipinas, Indonésia e Índia (Ásia); e Austrália (Oceania). São aproximadamente 400 irmãs, de 20 nacionalidades diferentes, mas que falam a mesma língua e seguem o mesmo lema: bondade e alegria.

“Tivemos em Madre Leônia e Dom Geraldo pessoas corajosas e entusiastas. Quando você tem pessoas assim, você vive a vocação com alegria. É uma herança que vamos transmitindo para as próximas gerações” – Irmã Aparecida

“Saber que os dois tinham uma vida profunda de oração. É isso que dá força e faz com que o espírito de Deus ilumine nossa vida. É o testemunho de vida deles de uma maneira concreta” – Irmã Zenaide

Por Edson Neves
Fotos: Angelita Santini Niedziejko

Irmãs Claretianas – 60 Anos

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