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58 anos de acolhimento

Cerca de 100 pessoas vivem atualmente no Asilo São Vicente de Paulo; a maioria não tem referência familiar e permanece no local até o fim da vida

 Em um cantinho discreto e silencioso no início da avenida Madre Leônia Milito, Jardim Bela Suiça, o asilo São Vicente de Paulo é cercado por jardins que o ligam à creche Santo Antônio e à Paróquia São Vicente. O prédio é amplo e dividido em duas alas, uma para idosos independentes e outra para os que tem a saúde debilitada. Atualmente 60 homens e 41 mulheres vivem na instituição. A maioria não tem referência familiar e permanece no local até o fim da vida.

A entidade mantenedora do espaço é a Sociedade São Vicente de Paulo, juntamente com as missionárias Claretianas, que gerenciam o atendimento. A história de amor e acolhimento começou 58 anos atrás quando, nesse mesmo endereço, havia apenas uma sequência de casas simples, chamada de Vila Vicentina.  “Recebíamos todas as pessoas que precisavam de ajuda, sem distinção de faixa etária. Praticávamos a caridade”, relembra Irmã Maria José, diretora do asilo.

A maior procura era de pessoas que tinham algum tipo de comprometimento, mental ou motor, ou que não tinham família. Irmã Maria José conta que, para atender a crescente demanda, era necessário um ambiente mais seguro. “Com o passar do tempo, começamos a qualificar o atendimento e atender especificamente idosos. Em 2003, com o estatuto do idoso, profissionalizamos o trabalho. Muita gente ajudou a construir o espaço adequado que temos hoje, principalmente a Sociedade Vicentina”, diz com gratidão.

Atualmente todos os idosos tem padrinhos que os visitam e presenteiam com regularidade. Convênios com instituições privadas propiciam um trabalho voluntário sério e contínuo na área de fisioterapia e no atendimento social. Todos os sábados vinte barbeiros vem atender os idosos. Também há voluntários que auxiliam na alimentação e fazem companhia nos passeios. Doze presos que cumprem penas alternativas prestam serviços aqui.

Os serviços médicos são prestados por um médico do município e um geriatra voluntário que atendem semanalmente os idosos, no ambulatório do asilo, acompanhados de estudantes do último ano do curso de medicina. Curativos também podem ser feitos no local. Procedimentos mais complexos são encaminhados pela UPA – Unidade de Pronto Atendimento.

Além de voluntários, o asilo tem 67 funcionários registrados. Na área da saúde trabalham 4 enfermeiras, 28 técnicos e auxiliares de enfermagem e dois cuidadores. A casa também conta com uma psicóloga, uma nutricionista e um educador físico.  Universidades apoiam a instituição cedendo estagiários para auxiliar nessas áreas.

A manutenção da casa é feita com promoções de eventos, doações da comunidade e um convênio com a Secretaria Municipal do Idoso, que repassa cerca de R$ 100 mil reais por mês, o equivalente a 30% das despesas gerais, para quitação da folha de pagamento. É o município que faz o encaminhamento dos idosos, mas a fila é grande a quase não se abrem vagas, já que a permanência é longa. Alguns internos têm mais de 100 anos de idade.

São servidas seis refeições por dia. Além das 101 pessoas atendidas, todos os funcionários se alimentam aqui. Só de arroz, são consumidos 140kg por semana. A limpeza do espaço é feita por uma empresa especializada. Os produtos de higienização – pessoal e coletiva – também precisam ser próprios para atender os idosos, que só usam sabonete líquido, por exemplo, por questão de segurança. Os gastos com remédios chegam a R$ 20 mil reais por mês.

O consumo de fraldas geriátricas também é grande, mais de 500 unidades por dia. Essa demanda é sempre suprida pelas doações espontâneas. Os empresários Gislene Isquierdo e Junior Souza vieram trazer uma doação grande para o asilo. Em parceria com uma construtora da cidade, eles trocaram ingressos para uma palestra por pacotes de fraldas. Os colaboradores aderiam à proposta e esta já é a terceira vez que participam. “Essa é uma idade que costuma ficar esquecida, para a qual a sociedade não volta energia. Por isso escolhemos ajudar o asilo”, diz Gislene.

Todo ano duas grandes festas são realizadas no asilo São Vicente para levantar fundos: a Festa Junina e a Costela Fogo de Chão. Outra fonte de renda é o bazar de roupas usadas que funciona ao lado do asilo. Todas as doações de roupas que chegam aqui passam por uma triagem. As peças que não atendem as necessidades dos idosos são destinadas ao bazar.

Lourdes Oliveira tem 85 anos e encontrou no abrigo apoio e companhia na velhice. Ela perdeu a filha e o único parente vivo é uma irmã, também idosa. Aqui ela participa de atividades recreativas, faz fisioterapia e convive com amigos. “Eu também gosto de ensinar os outros idosos que não são alfabetizados a ler. Pena que a memória já não é mais a mesma”, analisa com bom humor.

Olhar para os idosos do asilo São Vicente também é uma oportunidade de olharmos para o futuro que queremos para nós mesmos. Fazer uma visita ou estender a mão, não é apenas um ato de caridade, mas também de humildade diante do tempo. É permitir-se sentir a mão de Deus cuidando e confortando a todos por meio do amor que nos une.

 

Por Lívia Oliveira

Fotos: Angelita Niedziejko

 

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