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“Onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt 18,19-20)

Dando testemunho da vida comunitária, os Grupos Bíblicos de Reflexão (GBRs) aproximam as pessoas e motivam nelas uma fé atuante.

A mesa da casa recebe uma decoração especial com toalha, vela, imagens e a Bíblia Sagrada em posição de destaque. A porta é deixada entreaberta à espera da chegada dos vizinhos, que não precisam ser anunciados ou mesmo tocar a campainha ao entrar, porque já não são mais visita. É num clima completamente familiar que acontecem os Grupos Bíblicos de Reflexão (GBRs). Promovendo encontros semanais, pequenas comunidades se formam com o primeiro intuito de aprofundamento da fé.

À luz da Palavra de Deus, cuja leitura é feita de acordo com a liturgia dominical, são partilhadas diferentes impressões, pensamentos e testemunhos. Um livreto comum a toda a Arquidiocese de Londrina dá algumas orientações para a condução das reflexões, que é feita pelo animador responsável. Todos que participam têm seu espaço de fala e, juntos, vão analisando o contexto das passagens bíblicas e buscando trazê-las para a aplicação no cotidiano. “O livro traz informações interessantes que trabalham o contexto da leitura, pois quando você só lê a Bíblia, mas não busca o contexto, tem riscos de interpretar errado”, explica José Maria Martins, animador do Grupo Adonai.

Na Paróquia São Vicente de Paulo, existem hoje 38 GBRs, que envolvem mais de 400 pessoas. Há outros 11 grupos que estão vinculados à Capela Mãe da Divina Providência. Engana-se, entretanto, quem entende que o que é proporcionado por esses grupos se esgota no estudo bíblico. A convivência fraternal gera momentos de oração, confraternização e ajuda mútua. Nas reuniões, ao mesmo tempo em que é possível colocar como intenção a cura de alguém da família que esteja doente, pode-se partilhar a alegria de celebrar a vida em um aniversário. Dividir com a comunidade o momento pelo qual se está passando cria amizades que se estendem para além dos encontros semanais.

Na contramão do contato cada vez mais mediado por tecnologias, nos GBRs as pessoas têm a oportunidade de interagir olhando no olho. “O que mais tem são edifícios enormes, em que a gente sai de carro e chega de carro, então vai conhecer quem?”, argumenta Otavio Ribeiro, que já foi síndico do condomínio onde mora e afirma nem assim ter conhecido pessoas como conheceu graças ao grupo Imaculado Coração de Maria, do qual participa.

Desde o ano passado, na primeira quinta-feira do mês, GBRs se reúnem em seus respectivos setores missionários, estabelecidos por localização, para celebrar o Dia da Palavra. Essa nova postura pastoral atende às Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, definidas pela CNBB. A partir dessa experiência de união dos GBRs, uma maior participação tem sido alcançada. “Nas noites de Dia da Palavra, na Igreja iam cerca de 60 pessoas, agora um único setor já consegue reunir essa quantidade”, afirma Soraia Rodrigues, que é membro do grupo Caminhando com Cristo. Ela e o marido, José Carlos Rodrigues, são os atuais coordenadores gerais dos Grupos Bíblicos de reflexão e acreditam que a mudança não se reflete apenas em números, mas na profundidade das relações: “desde que começaram os setores, a gente conhece muitas pessoas aqui da região, e conhece não só de vista, mas de saber o nome, de conversar… isso é importante, deixa as pessoas mais próximas”.

Quando vários grupos se unem, fica clara a proposta de tornar a Paróquia uma comunidade de comunidades. A grande comunidade paroquial, impossibilitada de manter os vínculos humanos e sociais entre todos, é setorizada em grupos menores a fim de que seja superado o anonimato e as pessoas sejam individualmente acolhidas. O objetivo é que os fiéis não procurem a Igreja apenas para atender às suas demandas religiosas, mas que se sintam participantes de uma autêntica comunidade cristã.

Descentralizando suas atividades, a Paróquia favorece o aumento de líderes e ministros leigos e os incentiva a serem agentes da evangelização. Os GBRs atraem, portanto, pessoas que sentem a necessidade de ter uma vivência da fé que vai além da missa e é traduzida em ações concretas. Não é raro, por exemplo, os grupos bíblicos promoverem arrecadações solidárias para as famílias do Jardim Nova Esperança e entidades de caridade.

Não existe idade certa para participar de um GBR. Nas comunidades, encontram-se muitos idosos e é perceptível o quanto faz bem a eles participar. Para muitos, os grupos representam uma nova família, onde são valorizados, cuidados e encontram pessoas para conversar, evitando a solidão e o isolamento. Por outro lado, as reuniões oferecem oportunidade para que jovens e até mesmo crianças desenvolvam o desejo de aprender mais sobre os ensinamentos de Cristo. Com a convivência entre diferentes gerações, todos são beneficiados.

Aos 82 anos, Maria Salime Turrisi afirma com propriedade: “continuo aprendendo mesmo depois que começo achar que não vou aprender mais nada; a aprendizagem é um processo aberto”. Há situações em que são os mais novos que provocam reflexões, como no dia em que Giovana, uma adolescente de 13 anos, quis saber porque Deus havia permitido uma árvore com um fruto proibido no Paraíso. Os adultos tiveram que exercitar a criatividade, usando de analogias, para que a menina entendesse o amor de Deus ao dar o livre arbítrio ao ser humano.

A Leitura Orante da Bíblia, feita em grupo e de forma interativa, garante que todos cresçam na escuta da Palavra de Deus. Tendo ela como ponto de partida, as pessoas são levadas à catequese e à formação da consciência crítica. “Quando a pessoa vai para a missa e ouve as leituras e a reflexão do padre, ela já teve a oportunidade de ouvir de diversas pessoas a mensagem que elas tiram da passagem e fica mais ligada, prestando atenção mesmo, porque já se familiarizou com aqueles versículos”, explica José Carlos Rodrigues.

A Irmã Maria de Fátima Naves acrescenta que as reflexões do grupo significam um entendimento mais profundo da Palavra de Deus: “É um momento de conhecimento e de vivência, em que a gente questiona também as próprias atitudes, reflete, pergunta, aprende muito um com o outro, então vai para a missa com uma iluminação maior”. A essência dos Grupos Bíblicos de Reflexão, afinal, está no contato pessoal e comunitário com a Palavra, que ilumina as pessoas a testemunharem em suas vidas a fé cristã. A Bíblia é como uma fonte que reúne as pessoas e permite o nascimento da comunidade, gerando vias de comunhão, participação e missão ao povo da Igreja.

 

Testemunho de fé restaurada

A família de Claudia Mendonça está em Londrina há 9 meses, desde que o marido foi transferido de Minas Gerais para cá. Logo que se mudaram, a vizinha Ana Paula a convidou para participar das reuniões do GBR que acontecem no prédio, do grupo Adonai. Claudia demorou um tempo a aceitar, mas decidiu participar quando foi anunciada uma Novena de Natal. A partir disso, não largou mais.

“Foi uma renovação na minha vida, o grupo me puxou para a Igreja novamente”, testemunha. Claudia estava afastada da religião e frequentava as missas de maneira esporádica. O Grupo Bíblico de Reflexão reacendeu nela a fé em Jesus Eucarístico e a vontade de participar das celebrações – “Às vezes passava mais de 2 meses sem ir. Hoje, se eu não vou à missa no domingo, parece que minha semana está quebrada”.

Por meio do grupo, Claudia fez amizades importantes que a ajudaram na adaptação à cidade. Já chegou, inclusive, a fazer uma viagem para Aparecida do Norte com casais vizinhos. Ela garante, também, que o novo contato com a Palavra tem influenciado positivamente o convívio dentro de casa. Em um lar em que não havia grandes expressões de fé, a mudança tem aparecido nos detalhes – “levanto de manhã cedo, faço o café do meu filho e antes de ele sair rezo um Pai Nosso e uma Ave Maria e abençoo ele para ir para a escola”.

Recentemente, Claudia participou do Tríduo do Impossível, promovido pelo Grupo de Oração Caminhando com Maria e comemora ter alcançado duas graças – “Eu fiquei de joelhos e ali eu sabia que estava recebendo o que tinha pedido. E como eu cheguei lá? Através dos amigos do grupo bíblico”. (N.C)

COMO FAZER PARTE?

As pessoas que se interessarem em conhecer um Grupo Bíblico de Reflexão podem entrar em contato diretamente com os coordenadores, que irão direcioná-las ao grupo mais próximo de sua residência. Caso alguém tenha vontade de formar um novo grupo, o José Carlos e a Soraia também estão à disposição para darem o apoio inicial necessário.
José Carlos Rodrigues – (43) 9 9934-2126  – [email protected]
Soraia Bernardi Rodrigues – (43) 9 9602-4808- – [email protected]

Por: Nathalia Corsi

Foto: Angelita Niedziejko

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